O que aprendemos antes de
nascermos?
Quando o aprendizado começa?
Será no primeiro dia na escola ou jardim de infância? O aprendizado começa no
nascimento? Apresento uma ideia surpreendente e pode até não parecer plausível,
mas que é corroborada pelas ultimas provas da psicologia e biologia.A ideia de
que alguns dos aprendizados mais importantes acontecem antes de nascermos,
enquanto ainda estamos no útero. De acordo com a teoria das origens fetais a
nossa saúde e bem estar ao longo dos anos são diretamente afetados pelos nove
meses que passamos no útero. Significa que aprendemos sobre o mundo antes mesmo
de fazer parte dele.
Quando seguramos nossos bebês
pela primeira vez, podemos pensar que eles são quadros em branco, não escritos
pela vida, mas na verdade eles já foram moldados por nós e pelo mundo
específico em que vivemos. Os cientistas descobriram que os fetos aprendem
enquanto ainda estão na barriga das mães. Primeiro eles aprendem o som das
vozes das mães, pelo fato de os sons do mundo exterior entrar pelo tecido
abdominal da mãe e pelo líquido amniótico que envolve o feto. As vozes que os
fetos ouvem, começando pelo quarto mês de gestação são bastante abafadas. A
própria voz da gestante ecoa pelo seu corpo, chegando ao feto muito mais rápido
e como o feto está com ela o tempo todo, ele ouve muito a sua voz. Uma vez que
o bebê nasce, ele reconhece a sua voz e prefere ouvir lá ao invés da voz de
qualquer outra pessoa. Como sabemos disso?
Bebês recém- nascidos não fazem
muita coisa, mas uma coisa que eles fazem muito bem é mamar. Pesquisadores
beneficiaram-se deste fato ao equipar dois mamilos de borracha para que quando
o bebê mama em um deles, ele ouve a voz da mãe e no outro mamilo escuta a
gravação da voz de uma mulher estranha. Os bebês rapidamente mostram a sua
preferência ao escolher o primeiro. Os cientistas também tiram vantagem do fato
de que os bebês diminuem o ritmo da mamada quando algo lhes interessa e
reiniciam o ritmo mais rápido quando estão entediados. Foi assim que os
pesquisadores descobriram que bebês de mulheres que assistiram a uma
determinada novela todos os dias durante a gravidez, reconheceram a canção de
abertura do programa depois de nascido. Então fetos estão até aprendendo sobre a
língua em particular que é falada no mundo em que eles nascerão. Um estudo
publicado no ano passado descobriu que no momento do nascimento, bebês choram
com sotaque da sua língua natal. Bebês franceses choram em tom crescente,
enquanto que bebês alemães terminam em tom decrescente, imitando a melodia e contornos
dessa língua. Mas porque esse tipo de aprendizado fetal seria útil? Isso pode
ter evoluído para ajudar na sobrevivência do bebê. Do momento do nascimento, o
bebê responde mais para a voz da pessoa que provavelmente vai cuidar dele, a
mãe.
Ele até faz os choros parecerem
com a língua da mãe, o que pode ligar ainda mais o bebê a mãe e vice versa,
permitindo ainda uma vantagem na tarefa crítica de aprender a entender e falar
sua língua nativa. Não somente sons que os fetos estão aprendendo no útero. São
também gostos e cheiros, no sétimo mês de gestação as papilas gustativas do
bebê já estão totalmente desenvolvidas, e os receptores olfativos, que permitem
o cheiro estão funcionando. Os sabores da comida que a grávida come acham o
caminho até o líquido amniótico que é constantemente engolido pelo feto. Bebês
parecem lembrar e preferem esses gostos uma vez que estão do lado de fora do
útero. Em um experimento, foi pedido que um grupo de gravidas tomasse muito
suco de cenoura, durante o terceiro trimestre da gravidez e outro grupo de
grávidas tomou somente água. Seis meses depois, os bebês comeram cereal
misturado com suco de cenoura e suas expressões faciais foram observadas
enquanto comiam. Os nascidos das mulheres que beberam suco de cenoura comeram
mais cereal com gosto de cenoura, e pelo visto parece que eles gostaram.
Enquanto que os bebês das mães que só tomaram agua não apreciaram esse cereal
com gosto de cenoura. Isso significa que fetos são efetivamente ensinados por
suas mães sobre o que é seguro e bom para comer. São ensinados também sobre a
cultura específica de que eles farão parte através de uma das expressões mais
poderosas de cultura, a comida. Eles são introduzidos a sabores e temperos
característicos da cozinha de sua cultura mesmo antes de nascerem, mas acontece
que os fetos estão aprendendo lições muito maiores.
Mas antes de falar sobre isso,
imagino que esteja pensando será possível enriquecer o feto tocando Mozart
pelos fones de ouvido colocados sobre a barriga da gestante? Mas na verdade a
noção do aprendizado fetal é um processo longo de nove meses de moldar e formar
o que está no útero, é mais visceral e consequente do que isso. Muito do que a
grávida encontra na sua vida diária, o ar que ela respira a comida e bebida que
consome os químicos aos quais se expõe, até suas emoções são compartilhadas da
mesma forma com o feto. Eles formam uma mistura de influências tão individuais
e idiossincráticas quanto à própria mulher. O feto irá incorporar esses
elementos, no seu próprio corpo, fazendo parte da sua carne e sangue. E muitas
vezes acontecem algo mais, ele trata essas contribuições maternais como
informação, o que eu gosto de chamar de cartões postais biológicos do mundo do
lado de fora. Então o que o “feto aprende no útero não é a flauta mágica” do
Mozart, mas respostas a perguntas muito mais críticas para a sua sobrevivência.
O feto através da mãe recebe
informações se ele irá nascer em um mundo de abundância ou escassez, lugar
seguro e protegido ou irá encarar ameaças e perigos constantes, se ele terá uma
vida longa e frutífera ou uma vida curta e desprovida?
A dieta e o nível de estresse
da mulher grávida em particular dão pistas importantes das condições
prevalecentes, como um dedo levantado ao vento.
O resultado do afinamento e
ajuste do cérebro do feto e outros órgãos é parte do que dá aos humanos nossa
enorme flexibilidade, nossa habilidade de prosperar em uma grande variedade de
ambientes do interior à cidade, da tundra ao deserto.
No outono de 1944, nos dias
mais sombrios da 2ª guerra mundial tropas alemãs bloquearam o oeste da Holanda,
impedindo todos os carregamentos de comida. O começo do cerco nazista foi
seguido por um dos invernos mais rigorosos em décadas, tão frio que as águas
nos canais congelaram. Logo a comida ficou escassa, com muitos holandeses
sobrevivendo com 500 calorias por dia, um quarto do que consumiam antes da
guerra. À medida que as semanas de escassez tornaram se meses, alguns começaram
a comer tulipas. No começo de maio, a reserva de comida do país cuidadosamente
racionada estava completamente exaurida. A fome em massa era eminente, E então
em 5 de maio, 1945, o cerco nazista terminou subitamente quando a Holanda foi
liberada pelos aliados. “O” “INVERNO DA FOME”, como ficou conhecido, matou
cerca de 10 mil pessoas e enfraqueceram outros milhares. Mas outra população
também foi afetada os 40 mil fetos no útero durante o cerco nazista. Alguns dos
efeitos da desnutrição durante a gravidez foram imediatamente aparentes em um
número maior de natimortos, defeitos congênitos, bebês abaixo do peso e
mortalidade infantil. Mas outros efeitos não seriam descobertos por muitos
anos. Décadas depois do INVERNO DA FOME, pesquisadores documentaram que pessoas
cujas mães estavam grávidas durante o cerco sofrem mais obesidade, diabetes e
doenças do coração mais tarde na vida, do que os indivíduos que foram gestados
sob condições normais. A experiência de fome pré-natal destes indivíduos parece
ter mudado seus corpos de muitas maneiras. Eles têm maior pressão arterial, perfis
de colesterol mais pobre e tolerância à glicose reduzida, uma percussora da
diabetes. Porque a subnutrição no útero resultaria em doença mais tarde?
Uma explicação é que os fetos
tentam fazer o melhor em situações adversas. Quando a comida é escassa, eles
direcionam nutrientes para o órgão mais crítico, o cérebro, e não para os
demais órgãos como o coração e o fígado. Isso mantém o feto vivo a curto prazo,
mas ele tem que pagar a conta mais tarde na vida, quando tais órgãos, privados
de nutrientes no inicio, tornam se passíveis a doenças, mas talvez isso não
seja tudo, parece que os fetos pegam as dicas do ambiente intrauterino e moldam
sua psicologia de acordo. Eles estão se preparando para o tipo de mundo que
encontrarão do lado de foras do útero. O feto ajusta seu metabolismo e outros
processos psicológico preparando se para o ambiente que o espera. E a base da
previsão do feto é o que sua mãe come.
As refeições que á gravida consome constituem uma história, um conto de
fadas de abundância ou uma crônica cruel de privação.
Essa
história comunica à informação que o feto usa para organizar seu corpo e
sistemas, uma adaptação às circunstâncias prevalecentes que facilita sua
sobrevivência futura. Ao encarar recursos severamente limitados, uma criança de
menor tamanho com exigências de energia reduzidas terá de fato, melhores
chances de viver até a idade adulta. Mas o problema aparece quando as grávidas
são, de certo modo, narradoras não confiáveis, quando fetos são levados a
esperar um mundo de escassez e na verdade nascem em um mundo de abundância.
Isso foi o que aconteceu com as crianças holandesas do Inverno da fome. E seus
índices mais altos de diabetes e doenças do coração, obesidade são os
resultados de corpos que foram formados para consumir cada caloria, viram-se
nadando em calorias supérfluas da dieta ocidental do pós-guerra.
O mundo que aprenderam dentro
do útero não foi o mundo em que nasceram.
Palestra TED Annie Murphy Paul
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