quarta-feira, 17 de julho de 2013

O que aprendemos antes de nascermos?

Quando o aprendizado começa? Será no primeiro dia na escola ou jardim de infância? O aprendizado começa no nascimento? Apresento uma ideia surpreendente e pode até não parecer plausível, mas que é corroborada pelas ultimas provas da psicologia e biologia.A ideia de que alguns dos aprendizados mais importantes acontecem antes de nascermos, enquanto ainda estamos no útero. De acordo com a teoria das origens fetais a nossa saúde e bem estar ao longo dos anos são diretamente afetados pelos nove meses que passamos no útero. Significa que aprendemos sobre o mundo antes mesmo de fazer parte dele.
Quando seguramos nossos bebês pela primeira vez, podemos pensar que eles são quadros em branco, não escritos pela vida, mas na verdade eles já foram moldados por nós e pelo mundo específico em que vivemos. Os cientistas descobriram que os fetos aprendem enquanto ainda estão na barriga das mães. Primeiro eles aprendem o som das vozes das mães, pelo fato de os sons do mundo exterior entrar pelo tecido abdominal da mãe e pelo líquido amniótico que envolve o feto. As vozes que os fetos ouvem, começando pelo quarto mês de gestação são bastante abafadas. A própria voz da gestante ecoa pelo seu corpo, chegando ao feto muito mais rápido e como o feto está com ela o tempo todo, ele ouve muito a sua voz. Uma vez que o bebê nasce, ele reconhece a sua voz e prefere ouvir lá ao invés da voz de qualquer outra pessoa. Como sabemos disso?
Bebês recém- nascidos não fazem muita coisa, mas uma coisa que eles fazem muito bem é mamar. Pesquisadores beneficiaram-se deste fato ao equipar dois mamilos de borracha para que quando o bebê mama em um deles, ele ouve a voz da mãe e no outro mamilo escuta a gravação da voz de uma mulher estranha. Os bebês rapidamente mostram a sua preferência ao escolher o primeiro. Os cientistas também tiram vantagem do fato de que os bebês diminuem o ritmo da mamada quando algo lhes interessa e reiniciam o ritmo mais rápido quando estão entediados. Foi assim que os pesquisadores descobriram que bebês de mulheres que assistiram a uma determinada novela todos os dias durante a gravidez, reconheceram a canção de abertura do programa depois de nascido. Então fetos estão até aprendendo sobre a língua em particular que é falada no mundo em que eles nascerão. Um estudo publicado no ano passado descobriu que no momento do nascimento, bebês choram com sotaque da sua língua natal. Bebês franceses choram em tom crescente, enquanto que bebês alemães terminam em tom decrescente, imitando a melodia e contornos dessa língua. Mas porque esse tipo de aprendizado fetal seria útil? Isso pode ter evoluído para ajudar na sobrevivência do bebê. Do momento do nascimento, o bebê responde mais para a voz da pessoa que provavelmente vai cuidar dele, a mãe.
Ele até faz os choros parecerem com a língua da mãe, o que pode ligar ainda mais o bebê a mãe e vice versa, permitindo ainda uma vantagem na tarefa crítica de aprender a entender e falar sua língua nativa. Não somente sons que os fetos estão aprendendo no útero. São também gostos e cheiros, no sétimo mês de gestação as papilas gustativas do bebê já estão totalmente desenvolvidas, e os receptores olfativos, que permitem o cheiro estão funcionando. Os sabores da comida que a grávida come acham o caminho até o líquido amniótico que é constantemente engolido pelo feto. Bebês parecem lembrar e preferem esses gostos uma vez que estão do lado de fora do útero. Em um experimento, foi pedido que um grupo de gravidas tomasse muito suco de cenoura, durante o terceiro trimestre da gravidez e outro grupo de grávidas tomou somente água. Seis meses depois, os bebês comeram cereal misturado com suco de cenoura e suas expressões faciais foram observadas enquanto comiam. Os nascidos das mulheres que beberam suco de cenoura comeram mais cereal com gosto de cenoura, e pelo visto parece que eles gostaram. Enquanto que os bebês das mães que só tomaram agua não apreciaram esse cereal com gosto de cenoura. Isso significa que fetos são efetivamente ensinados por suas mães sobre o que é seguro e bom para comer. São ensinados também sobre a cultura específica de que eles farão parte através de uma das expressões mais poderosas de cultura, a comida. Eles são introduzidos a sabores e temperos característicos da cozinha de sua cultura mesmo antes de nascerem, mas acontece que os fetos estão aprendendo lições muito maiores.
Mas antes de falar sobre isso, imagino que esteja pensando será possível enriquecer o feto tocando Mozart pelos fones de ouvido colocados sobre a barriga da gestante? Mas na verdade a noção do aprendizado fetal é um processo longo de nove meses de moldar e formar o que está no útero, é mais visceral e consequente do que isso. Muito do que a grávida encontra na sua vida diária, o ar que ela respira a comida e bebida que consome os químicos aos quais se expõe, até suas emoções são compartilhadas da mesma forma com o feto. Eles formam uma mistura de influências tão individuais e idiossincráticas quanto à própria mulher. O feto irá incorporar esses elementos, no seu próprio corpo, fazendo parte da sua carne e sangue. E muitas vezes acontecem algo mais, ele trata essas contribuições maternais como informação, o que eu gosto de chamar de cartões postais biológicos do mundo do lado de fora. Então o que o “feto aprende no útero não é a flauta mágica” do Mozart, mas respostas a perguntas muito mais críticas para a sua sobrevivência.
O feto através da mãe recebe informações se ele irá nascer em um mundo de abundância ou escassez, lugar seguro e protegido ou irá encarar ameaças e perigos constantes, se ele terá uma vida longa e frutífera ou uma vida curta e desprovida?
A dieta e o nível de estresse da mulher grávida em particular dão pistas importantes das condições prevalecentes, como um dedo levantado ao vento.
O resultado do afinamento e ajuste do cérebro do feto e outros órgãos é parte do que dá aos humanos nossa enorme flexibilidade, nossa habilidade de prosperar em uma grande variedade de ambientes do interior à cidade, da tundra ao deserto.
No outono de 1944, nos dias mais sombrios da 2ª guerra mundial tropas alemãs bloquearam o oeste da Holanda, impedindo todos os carregamentos de comida. O começo do cerco nazista foi seguido por um dos invernos mais rigorosos em décadas, tão frio que as águas nos canais congelaram. Logo a comida ficou escassa, com muitos holandeses sobrevivendo com 500 calorias por dia, um quarto do que consumiam antes da guerra. À medida que as semanas de escassez tornaram se meses, alguns começaram a comer tulipas. No começo de maio, a reserva de comida do país cuidadosamente racionada estava completamente exaurida. A fome em massa era eminente, E então em 5 de maio, 1945, o cerco nazista terminou subitamente quando a Holanda foi liberada pelos aliados. “O” “INVERNO DA FOME”, como ficou conhecido, matou cerca de 10 mil pessoas e enfraqueceram outros milhares. Mas outra população também foi afetada os 40 mil fetos no útero durante o cerco nazista. Alguns dos efeitos da desnutrição durante a gravidez foram imediatamente aparentes em um número maior de natimortos, defeitos congênitos, bebês abaixo do peso e mortalidade infantil. Mas outros efeitos não seriam descobertos por muitos anos. Décadas depois do INVERNO DA FOME, pesquisadores documentaram que pessoas cujas mães estavam grávidas durante o cerco sofrem mais obesidade, diabetes e doenças do coração mais tarde na vida, do que os indivíduos que foram gestados sob condições normais. A experiência de fome pré-natal destes indivíduos parece ter mudado seus corpos de muitas maneiras. Eles têm maior pressão arterial, perfis de colesterol mais pobre e tolerância à glicose reduzida, uma percussora da diabetes. Porque a subnutrição no útero resultaria em doença mais tarde?
Uma explicação é que os fetos tentam fazer o melhor em situações adversas. Quando a comida é escassa, eles direcionam nutrientes para o órgão mais crítico, o cérebro, e não para os demais órgãos como o coração e o fígado. Isso mantém o feto vivo a curto prazo, mas ele tem que pagar a conta mais tarde na vida, quando tais órgãos, privados de nutrientes no inicio, tornam se passíveis a doenças, mas talvez isso não seja tudo, parece que os fetos pegam as dicas do ambiente intrauterino e moldam sua psicologia de acordo. Eles estão se preparando para o tipo de mundo que encontrarão do lado de foras do útero. O feto ajusta seu metabolismo e outros processos psicológico preparando se para o ambiente que o espera. E a base da previsão do feto é o que sua mãe come.  As refeições que á gravida consome constituem uma história, um conto de fadas de abundância ou uma crônica cruel de privação.
Essa história comunica à informação que o feto usa para organizar seu corpo e sistemas, uma adaptação às circunstâncias prevalecentes que facilita sua sobrevivência futura. Ao encarar recursos severamente limitados, uma criança de menor tamanho com exigências de energia reduzidas terá de fato, melhores chances de viver até a idade adulta. Mas o problema aparece quando as grávidas são, de certo modo, narradoras não confiáveis, quando fetos são levados a esperar um mundo de escassez e na verdade nascem em um mundo de abundância. Isso foi o que aconteceu com as crianças holandesas do Inverno da fome. E seus índices mais altos de diabetes e doenças do coração, obesidade são os resultados de corpos que foram formados para consumir cada caloria, viram-se nadando em calorias supérfluas da dieta ocidental do pós-guerra.

O mundo que aprenderam dentro do útero não foi o mundo em que nasceram.


Palestra TED Annie Murphy Paul


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